Falemos de música  

 

A música é uma das artes mais universalmente compreendidas e por isso desenvolvidas e aceites por quase toda gente.
Todos sabemos de que música gostamos e cada um gosta à sua maneira de estilos e géneros, e dentro deles, de artistas e orquestras.
Mas poucos conhecem os bastidores da música no sentido de como foi feita, executada, gravada e reproduzida.
Tentarei aqui dar uma ideia de como foram aparecendo e tocadas as minhas músicas.
Tudo começou quando aos 11 anos “tropecei” numa viola pela primeira vez.
O senhor meu Pai era Juiz e naquela época os Juízes viviam mesmo mal – o meu Pai, que tinha formação musical clássica (tocava violino) apercebeu-se imediatamente de que eu e os meus dois irmãos mais novos tínhamos um gosto especial pela viola.
Só três anos depois, ele nos deu as nossas primeiras violas – belas violas “Padrelas” que os meus pais compraram com sacrifício, a prestações, que foram o pontapé de saída para a nossa evolução musical.
Ao longo dos anos fomos aprendendo anarquicamente como se tocava viola, com um cheirinho de teoria musical.
Dessa época (1964/1970) datam as amizades que fiz com alguns músicos como o João Maló e o Jorge Palma, ambos lisboetas como nós, com idades semelhantes.
(O João vive agora na zona do Estoril e tornou-se um músico de alto nível, costuma tocar em Cascais aos fins de semana - veja aqui.
O Jorge dispensa apresentação: saiu há menos de um mês o “Encosta-te a Mim”, que está a fazer furor).
Durante anos fui tocando aqui e ali, com amigos ou sozinho, toquei nalguns grupos que não deixaram rasto e só quando estava a acabar o curso de Direito se me colocou a questão de poder abraçar uma carreira de músico.
Isso nunca aconteceu - tornei-me jurista e continuei a ir tocando qualquer coisa mas sempre sem um projecto definido - nem cheguei a estudar música, como pretendia, porque isso era demasiado penalizante em termos de tempo.
Um belo dia, já era Juiz mas ainda solteiro e vivendo em casa de meus pais, colocou-se-me uma dúvida terrível quando estava a estudar uma canção do Paul Simon ("Still Crazy After All These Years") e, abusando da paciência e da boa vontade da sra. Dra. Elisa Lamas, Professora do Conservatório de Lisboa e nossa vizinha, bati-lhe à porta e pedi a sua ajuda para compreender aquilo; a resposta da senhora foi esmagadora: "só lhe posso tirar essa dúvida depois de você estudar um ano de Solfejo e outro ano de Harmonia" !
Desisti, claro; estava à beira de ser colocado Juiz na comarca de Odemira, a 200 Km de Lisboa e era de todo impossível frequentar uma escola de música em Lisboa.
Mas não desisti de tocar: com o meu primeiro subsídio de Natal em 1980 (que então era a fortuna de 17 contos) dirigi-me à Custódio Cardoso Pereira no Chiado, onde trabalhava o meu amigo Xanito (Alexandre Cardoso, outro amigo de épocas de antanho), e pedi-lhe a melhor viola folk que lá tinha e que coubesse no meu orçamento; acabei por comprar a Ibañez de cordas de aço que estou a tocar na fotografia acima, que me acompanhou durante muitos anos, que ainda hoje é uma das minhas melhores violas.
Ao fim de 27 anos de uso passou pelas mãos do Gil Oliveira (um excelente artesão de violas de renome internacional que vive quase escondido num monte próximo da localidade de S. Luís, concelho de Odemira) e hoje, electrificada e com a escala rebaixada, produz um som excepcional (foi com ela no papel de viola principal que gravei recentemente o "Hard to Say I'm Sorry" e o "Dona").
Mais tarde, em 1988, comprei a minha Ovation, viola clássica electro-acústica de origem, de cordas de nylon, que se tornou na minha primeira viola.
Fui tocando mais ou menos consoante as épocas; nunca abandonei a viola, embora por vezes passassem temporadas em que lhe pegava muito pouco.
Ainda faltavam alguns anos para ter um sobressalto musical.

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